terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A garota ninguém

Era uma menina comum, ninguém nunca lhe deu crédito algum. Muitos acreditavam que dela não sairia nada, ela sempre sumia no meio da multidão que rondava. Nem os próprios pais da coitada sabiam valorizar o potencial que nela agonizava. Mas eis que chega o belo dia, ela se cansou de ser alguém que nunca significou nada para ninguém. Foi se juntar a uma seita extremista, decidiu que não mais viveria nesse mundo individualista. Com o coração lotado de amargura, amarrou uma bomba em sua cintura. Caminhou calmamente para o centro da praça lotada, e com o sorriso que sua cara estampava, apertou o gatilho. E foi embora deixando uma lição para aqueles que nunca ligaram se ela estava feliz ou não, mostrou a todos que nenhuma vida é em vão. 

(Mariana Magalhães)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Insatisfação Temporal

Parecia que a chuva nunca mais viria, o sol rachava e o venho não batia. As pessoas andavam irritadas, sem paciência e egoístas. Água e cerveja não mais continham essa agonia. Parecia até o livro do Gabriel Garcia. Passava noite e dia, e essa impaciência só cessaria no dia em que o verão chegasse trazendo a chuva pedida. E, depois de uns três dias molhados, viria a ironia, as pessoas voltariam a reclamar um tanto, mas para que o sol levasse a chuva durante o dia.

(Mariana Magalhães)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Roleta Russa

E tudo vira uma roleta russa. Às vezes parece que somos um hamster correndo sem destino dentro de uma gaiola. Somos cobaias da lorota política e do individualismo social. Nesse mundo dos espertos, é difícil tentar ser um pardal que voa livre sobre o quintal. Não sei dizer por quanto tempo mais a sociedade vai sustentar toda essa poluição, essa não democratização, essa globalização que só caminha para a podridão.  Só posso dizer que estamos perto de uma explosão de insatisfação. É. É pesado pensar que somos seres autodestrutivos. E pior é saber que somos uma espécie de bomba atômica prestes a desencadear o caos. Ganância só sobrevive em cima de pobreza. Então eu pergunto, aonde há beleza em ser um ser rodeado de solidão e tristeza?

(Mariana Magalhães)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Faça as contas


Almeidinha era o sujeito inventado pelos amigos de faculdade para personalizar tudo o que não queríamos nos transformar ao longo dos anos. A projeção era a de um cidadão médio: resmungão em casa, satisfeito com o emprego na “firma” e à espera da aposentadoria para poder tomar banho, colocar pijama às quatro da tarde, assistir ao Datena e reclamar da janta preparada pela esposa. O Almeidinha é aquele sujeito capaz de rir de qualquer piada de português, negro, gay e loira. Que guarda revistas pornográficas no armário, baba nas pernas da vizinha desquitada (é assim que ele fala) mas implica quando a filha coloca um vestido mais curto. Que não perde a chance de dizer o quanto a esposa (ele chama de “patroa”) engordou desde o casamento.
O Almeidinha, para nosso espanto, está hoje em toda parte. Multiplicou-se em proporção geométrica e, com os anos, se modernizou. O sujeito que montava no carro no fim de semana e levava a família para ir ao jardim zoológico dar pipoca aos macacos (apesar das placas de proibição) sucumbiu ao sinal dos tempos e aderiu à internet. Virou um militante das correntes de e-mail com alertas sobre o perigo comunista, as contas no exterior do ex-presidente, os planos do Congresso para acabar com o 13º salário. Depois foi para o Orkut. Depois para o Facebook. Ali encontrou os amigos da firma que todos os dias o lembram dos perigos de se viver num mundo sem valores familiares. O Almeidinha presta serviços humanitários ao compartilhar alarmes sobre privacidade na rede, homenagens a pessoas doentes e fotos de crianças deformadas. O Almeidinha também distribui bons dias aos amigos com piadas sobre o Verdão (“estude para o vestibular porque vai cair…hihihii”) e mensagens motivacionais. A favorita é aquela sobre amar as pessoas como se não houvesse amanhã, que ele jura ser do Cazuza mas chegou a ele como Caio Fernandes (sic) Abreu.
O Almeidinha gosta também de se posicionar sobre os assuntos que causam comoção. Para ele, a atual onda de violência em São Paulo só acontece porque os pobres, para ele potenciais criminosos (seja assassino ou ladrão de galinha) têm direitos demais. O Almeidinha tem um lema: “Direitos Humanos para Humanos Direitos”. Aliás, é ouvir essa expressão, que ele não sabe definir muito bem, e o Almeidinha boa praça e inofensivo da vizinhança se transforma. “Lógica da criminalidade”, “superlotação de presídios”, “sindicato do crime”, “enfrentamento”, “uso excessivo da força”, para ele, é conversa de intelectual. E se tem uma coisa que o Almeidinha detesta mais que o Lula ou o Mano Menezes (sempre nesta ordem) é intelectual. O Almeidinha tem pavor. Tivesse duas bombas eram dois endereços certos: a favela e a USP. A favela porque ele acredita no governador Sergio Cabral quando ele fala em fábrica de marginais. A USP porque está cansado de trabalhar para pagar a conta de gente que não tem nada a fazer a não ser promover greves, invasões, protestos e espalhar palavras difíceis. O Almeidinha vota no primeiro candidato que propuser esterilizar a fábrica de marginal e a construção de um estacionamento no lugar da universidade pública.
Uma metralhadora na mão do Almeidinha e não sobraria vagabundo na Terra. (O Almeidinha até fala baixo para não ser repreendido pela “patroa”, mas se alguém falar ao ouvido dele que “Hitler não estava assim tão errado” ganha um amigo para o resto da vida).
A cólera, que o fazia acordar condenando o mundo pela manhã, está agora controlada graças aos remédios. O Almeidinha evoluiu muito desde então. Embora desconfiado, o Almeidinha anda numas, por exemplo, de que agora as coisas estão entrando nos eixos porque os políticos – para ele a representação de tudo o que o impediu de ter uma casa na praia – estão indo para a cadeia. Ele não entende uma palavra do que diz o tal do Joaquim Barbosa, mas já reservou espaço para um pôster do ministro do Supremo ao lado do cartaz do Luciano Huck (“cara bom, ajuda as pessoas”) e do Rafinha Bastos (“ele sim tem coragem de falar a verdade”). O Almeidinha não teve colegas negros na escola nem na faculdade, mas ele acha que o exemplo de Barbosa e do presidente Barack Obama é prova inequívoca de que o sistema de cotas é uma medida populista. É o que dizia o “meme” que ele espalhou no Facebook com o argumento de que, na escravidão, o tráfico de escravos tinha participação dos africanos. Por isso, quando o assunto encrespa, ele costuma recorrer ao “nada contra, até tenho amigos de cor (é assim que ele fala), mas muitos deles têm preconceitos contra eles mesmos”.
O Almeidinha costuma repetir também que os pobres é que não se ajudam. Vê o caso da empregada, que achou pouco ganhar vinte reais por dia para lavar suas cuecas e preferiu voltar a estudar. Culpa do Bolsa Família, ele diz, esse instrumento eleitoral que leva todos os nordestinos, descendentes de nordestinos e simpatizantes de nordestinos a votar com medo de perder a boquinha. Em tempo: o filho do Almeidinha tem quase 30 anos e nunca trabalhou. Falta de oportunidade, diz o Almeidinha, só porque o filho não tem pistolão. Vagabundo é outra coisa. Outra cor. Como o pai, o filho do Almeidinha detesta qualquer tipo de bolsa governamental. A bolsa-gasolina que recebe do pai, garante, é outra coisa. Não mexe com recurso público. (O Almeidinha não conta pra ninguém, mas liga todo dia, duas vezes por dia, para o primo de um conhecido instalado na prefeitura para saber se não tem uma boca de assessor para o filho em algum gabinete).
O filho do Almeidinha também é ativista virtual. Curte PlayStation, as sacadas do Willy Wonka, frases sobre erros de gramática do Enem, frases sobre o frio, sobre o que comer no almoço e sobre as bebedeiras com os moleques no fim de semana (segue a página de oito marcas de cerveja). Compartilha vídeos de propagandas de carro e fotos de mulheres barrigudas e sem dentes na praia. Riu até doer a barriga com a página das barangas. Detesta política – ele não passa um dia sem lembrar a eleição do Tiririca para dizer que só tem palhaço em Brasília. E se sente vingado toda vez que alguém do CQC faz “lero-lero” na frente do Congresso. Acha todos eles uns caras fodásticos (é assim que ele fala). Talvez até mais que o Arnaldo Jabor. Pensa em votar com nariz de palhaço na próxima eleição (pensa em fazer isso até que o voto deixe de ser obrigatório e ele possa aproveitar o domingo no videogame). Até lá, vai seguir destruindo placas e cavaletes que atrapalham suas andanças pela cidade.
Como o pai, o filho do Almeidinha tem respostas e certezas para tudo. Não viveu na ditadura, mas morre de saudade dos tempos em que as coisas funcionavam. Espera ansioso um plebiscito para introduzir de vez a pena de morte (a única solução para a malandragem) e reduzir a maioridade penal até o dia em que se poderá levar bebês de oito meses para a cadeia. Quer um plebiscito também para acabar com a Marcha das Vadias. O que é bonito, para ele, é para se ver. E se tocar. E ninguém ouve cantada se não provoca (a favorita dele é “hoje não é seu aniversário mas você está de parabéns, sua linda”. Fala isso com os amigos e sai em disparada no carro do pai. O filho do Almeidinha era “O” zoão da turma na facul).
Pai e filho estão cada vez mais parecidos. O pai já joga Playstation e o menino de 30 anos já fala sobre a decadência dos costumes. Para tudo têm uma sentença: “Ê, Brasil”. Almeidinha pai e Almeidinha filho têm admiração similar ao estilo civilizado de vida europeu. Não passam um dia sem dizer que a vida, deles e da humanidade em geral, seria melhor se o país fosse dividido entre o Brasil do Sul e o Brasil do Norte. Quando esse dia chegar, garantem, o Brasil enfim será o país do presente e não do futuro. Um país à imagem e semelhança de um Almeidinha.

(por Matheus Pichonelli em Carta Capital)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Amor parasita

Tem gente que vive sem ter vida. Acha que o amor se constrói em cima de mentira. Se perde no que é ser  você mesmo sem o ar que o outro respira. Pensa que deixa o outro livre, mas na realidade o parasita. Permanece horas a fio tentando justificar uma obsessão, que não entende fazer mal ao coração. Os outros perdem a esperança de solução. Cansaram de insistir em vão. Então continuam se afastando, vivendo em cima desse bordão. E os parasitas ficam juntos em meio da solidão.

(Mariana Magalhães) 

domingo, 28 de outubro de 2012

Marasmo de 40ºC


A ressaca dominava meu pobre corpo há dois dias, e parecia ainda pior com o calor, além de fazê-lo pior também. Mal conseguia sair daquele muquifo pra fazer qualquer coisa, apesar da vontade de sair de dentro daquelas quatro paredes com cheiro de álcool e perfume dormidos, bitucas, latas e garrafas vazias espalhadas pelo chão. O ventilador de teto rodava meio cansado, já não ajudava tanto, e fazia uma bela dupla com o vinil rodando na vitrola, o que ainda me cedia a sensação de estar num filme do Tarantino. Nem um ventinho, nem uma brisinha. Só enrolávamos um cigarro atrás do outro, sem forças até pra conversar por muito tempo, mas em algum momento seria necessário abandonar ali e partir - provavelmente rumo ao boteco de costume. Era difícil criar qualquer expectativa que superasse muito esse marasmo quando o calor insuportável era só a cereja do bolo de decadência em que vivíamos nos últimos tempos.

(Mariana Pio)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Não foi nesse voo.


Ele era mais um desses barbudos, de cabelo bagunçado, que se encontrava em um aeroporto, rumo a um destino qualquer.
Seu nome, eu nunca soube. Mas me atraia pelo simples fato de andar com roupas largadas, meio velhas, seu livro na mão e ouvindo alguma música que com certeza eu gostaria de ouvir também.
Tive muitas vontades desde o momento em que o vi pela primeira vez. Ele mal notava minha existência, mas queria muito perguntar se ele me daria um de seus fones de ouvido, para que eu pudesse adentrar em seu universo desconhecido.
Mas é difícil realizar tal façanha quando se está a beira de um colapso nervoso, com o coração batendo no céu da boca. Normalmente, minha tendência, nesses momentos, é congelar completamente.
Ele continuava lá, sentado, lendo seu livro. Matutei por alguns minutos o que falar ou não com ele. Aquela indagação mental mais parecia uma disputa do meu lado diabólico versus o meu lado de anjo. Em minha cabeça, essa indecisão pareceu durar uma eternidade, mas eu tinha um relógio que desmentia o meu ‘achometro’.
Em fim, tomei coragem e me levantei. Resolvi. Ia até lá falar com ele. Coloquei no rosto meu sorriso mais bonito. Quando me aproximava, apareceu o Murphy para me dar uma rasteira. 
Aquele moreno sedutor recebeu um beijo caloroso e inesperado (pelo menos por mim), desses tipo de filme, e o pior, o remetente desse beijo avassalador era uma morena, alta e de porte fino.
Voltei ao meu estado de congelamento. Fiquei ali, parada, vendo aquele amor todo se exalando, até o minuto em que eles se levantaram e foram embarcar naquele destino desconhecido. 
Passaram por mim. Ele trombou em meu ombro, e no mesmo segundo, se virou e me pediu desculpas com a voz mais doce que eu já havia ouvido. Não tive tempo de responder.
Continuei no mesmo lugar, com os pés concretizados no chão. De repente, em um estalo, voltei para a realidade e cai em desespero. Anunciavam a última chamada para o meu voo...


(Mariana Magalhães)


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Não conto meus tocs pra ninguém


Colecionadora de corações, andava por aí com cara de quem nem liga, mas bem sabia que aos seus pés havia mais de duas mãos. O coração nasceu defeituoso, diziam uns; a cabeça está fora de moda, diziam outros. Mas só ela sabia do fardo de ter revelado seus tocs a alguém num passado não muito distante. Era o que culpava pelo fracasso de seu maior investimento. Ela se revelara demais, e agora se dava conta de que pouco valia guardar seu coração (e entregá-lo) a um único alguém quando é a ele que cabe a decisão de aceitá-lo ou não. O Gostar estava em baixa, pouca especulação, já não valia muito naqueles tempos. Seu valor dependia da disposição do alguém para lidar com ela. Concluiu que o melhor era guardar os tocs na própria loucura, antes que muitos soubessem que o volume do som tem que ser número par, e pulem da proa antes de zarpar. Gostar? Te desafio a me aceitar.

(Mariana P.)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Válvula de escape

O desespero chegou
o coração acelerou
Eu precisava correr
na verdade,
eu precisava escrever
Enquanto não desabafasse
minhas inquietações
através dos meus garranchos
nunca conseguiria
acalantar meu coração dos prantos.

(Mariana Magalhães)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A consciência tarda, mas não falha.

A eterna briga da protegida e da desgovernada, até quando isso vai dar em nada? Uns acham que é uma disputa desalmada, outros entendem que é uma batalha dominada. Parece até conversa política comprada. Fala, fala, fala. Entra em um ouvido e sai pela culatra. Mas o mundo dá suas voltas. A consciência tarda mas não falha. Um dia a batalha acaba, a guerra perde seu sentido, a desgovernada cresce e cai na estrada, mas não precisa ser guiada, já tem volante e mapa para seguir um caminho distante. E quem pouco a entendia e ouvia, agora cai na agonia, por perceber que passou a vida lutando com quem poderia ter passado a vida amando.

(Mariana Magalhães)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Três doses de tempo


Batiam as primeiras 24 horas sem ele, e eu mal conseguia entender das horas. Sentada no terceiro bar da noite, com os mesmos bons e velhos amigos de sempre, percebi o que até então evitara pensar a respeito, mas agora o álcool me sacudia e despejava essa coisa toda na minha cara sem qualquer sugestão de piedade: ele não me amava. Nunca me amou. Eu não queria acreditar. Uma amiga me disse que isso que acontecia comigo toda vez que me permitia gostar de alguém era castigo – eu pagava pelo sofrimento que causei a um certo ex namorado ou alguma coisa do tipo. Lei da ação e reação, também conhecida como toma-lá-dá-cá. Então o melhor que eu podia fazer por mim mesma e por todo mundo era aceitar isso – aceitar que aquela coisa toda tinha sido a porra de uma mentira gorda e grande que eu agora tentava ver como uma lembrança dessas que arranca da gente um sorriso distante – e seguir em frente, pra qualquer direção que fosse. Então sugeri uma festa; musica boa, gente nova e bebida a rodo. Minutos depois estávamos num desses inferninhos no subsolo. Era uma loucura. Mas não era o suficiente. Então apareceu um velho flerte e no próximo momento estávamos fora.
A  próxima lembrança era de estar completamente anestesiada, me arrastando escada acima em direção a minha casa. Meu cabelo, minhas mãos, tudo tinha cheiro de outro. Minha boca tinha outro gosto – um gosto estranho. Ele não era ele. Ai entendi que isso não ia me ajudar, só ia me embaralhar... era pura mágica: eu queria acreditar nisso, que seria de qualquer valia, mas sabia que era mentira. Mais uma. Nada do que eu fizesse ali e agora iria me ajudar da forma que eu precisava. Só o que eu podia fazer era pedir uma dose a mais junto com a tequila:
- Uma... não, três doses de tempo, por favor. Com sal e limão.

(Mariana P.)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O itinerante das sombras


Em uma sala de faculdade, tinha um aluno não muito adorado, nem um pouco idolatrado, estava mais para escorraçado. Não era feio, mas não era um príncipe, as meninas, que um dia o consideraram interessante, hoje, o viam como desgastante. Fazia questão de parecer inteligente, mas nem alguns professores aguentavam mais suas perguntas de puxa saco insistente. Engomadinho e de sorriso colgate, ria das piadas sem graças do professor e dava tapinha nas costas andando pelo corredor. Esse já nasceu perdedor. Construía sua personalidade à sombra dos outros. Não surpreendia mulheres interessantes, não fazia amigos confortantes, sua arrogância o tornava um indivíduo itinerante entre as sombras de gente importante.

(Mariana Magalhães)

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Versos Curtos


Queria te escrever
Um poema de versos longos
Pra você saber
Que toda noite me aparece em sonhos.

Um épico de aventuras;
Poema de rimas difíceis
Inspirado por uma lua cheia
E cheio de metáforas invisíveis.

Queria te contar segredos,
Mas tudo o que posso fazer
É me despir pra você –
Que já sabe dos meus mais profundos medos.

Queria ser o suficiente;
Tudo o que você precisa,
Mas não sei ser muito mais,
Do que uma mente perturbada
Num corpo que pede paz.

Queria que você me amasse
Bem do jeitinho que eu sou
Ou simplesmente me abraçasse
Pelo jeito que não sei ser.
Ou que só aceitasse
Os vícios que não nego ter.

Não posso fazer nada disso,
Não sei escrever épicos,
O que escrevo não passa de meras páginas.
Nem sei lidar com romances
Sem me afogar em lágrimas,
Mas queria que você soubesse
Por telepatia, conexão,
Ou pensamento em transmissão,
O que em épicos ou romances
Ou poemas de versos longos
Não teria a menor chance:
Eu
Te
Amo.


(Mariana P.)

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Poetisa do XXI


Ela era uma escritora
Mas tiraram de sua mão
O papel e a caneta
Tudo o que a tornava uma autora
Foi vítima da censura
Mas não aquela da Ditadura
Ela estava no século XXI
E tudo o que o povo lia
Era apenas mais um
Não apreciavam mais a poesia
Só queriam saber
Se o dinheiro viria
Ela decidiu que não mais viveria
E um dia
Sua lápide diria
‘Aqui jaz uma poetisa
Que no mundo errado vivia’.

(Mariana Magalhães)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O pedido pelo ônibus

Eram exatamente meia noite. Ele me dava um beijo quente, não queria me largar, era como se tivesse tentando me falar que não queria partir. Sim, era doloroso demais quando nos separávamos, mas, infelizmente, a distancia ainda estava entre nós. O motorista do ônibus, fazia a última chamada, já impaciente. Então, ele foi largando a minha mão, seguindo em direção a porta, mas sem tirar os olhos de mim. Veio o aperto no coração. Ele sentou na janela. Ficamos nos olhando por alguns segundos. De repente ele desviou o olhar para algo dentro de sua mochila. Sem entender o que era, comecei a seguir o ônibus, que ainda andava devagar. Quando, finalmente, ele voltou seus olhos para mim, colocou na janela um caderno com o escrito em uma folha: 'Casa comigo?'. Por alguns segundos parei de correr e congelei. Assim que voltei para mim, olhei para a janela em que ele estava. Ele me alcançava inquieto com o olhar. Voltei a correr, com uma lágrima escorrendo pelos olhos, mas com um sorriso que atravessava as orelhas. Ele, entendendo minha resposta, sorriu de volta e fez um coração com as mãos pelo vidro da janela. Ai, parei de correr, o ônibus virou a esquina.

(Mariana Magalhães)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Substituível

Um pouco de blush e rímel pelo rosto, louro comprado e mais um pouco de dinheiro no bolso. Bonita de se ver, usava roupas da moda e um batom clichê. À primeira vista ele se apaixonou e para um show ele a convidou. Era muita felicidade, ele estava com uma das meninas mais bonitas da cidade. Até que desesperadamente ele se arrependeu, depois que ela resolveu tagarelar, ele ficou a se perguntar, aonde aquela beleza toda se meteu. Percebeu que ela era como muitas outras, vivem de aparência, se tornam ‘barbies’ e não possuem presença. São bonecas de tamanho adulto, andam por aí a procura de alguém maduro.

(Mariana Magalhães)

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O viajante


A gente sabia que era grande
Mas também sabíamos que era inconstante
Alcançamos algo excitante
Chegava a ser radiante
Um dia a luz se apagou
E a falta de calor nos separou
Mas de mim você nunca saiu
Será sempre meu céu azul anil
Segue sua vida de viajante
Vai conhecer esse mundo gigante
E quando der a volta por inteiro
Lembre que seu coração é brasileiro
Aqui sempre terá lugar para um cheiro
E suspirando espero,
Um dia,
De novo, pelo seu beijo.

(Mariana Magalhães)

domingo, 15 de julho de 2012

Tormento de escritor.


Tenho um caderno no bolso
Mil ideias em alvoroço
Mas nada sai
quando tento fazer um esboço.

(Mariana Magalhães)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Não quero acordar.


Escuto umas baboseiras às vezes...
Hoje a certeza do mundo é o que está na internet
Cansei de gente que acha que rede social é psicólogo
Quer desabafar? Vai conhecer o mundo pra ter do que reclamar
Dê mais valor ao o que você vê
E não ao que os outros veem
Hipocrisias a parte
Todo mundo é meio hipócrita
Mas e daí? Você é feliz?
Felicidade deixou de ser tendência
O imediatismo quebrou os sonhos
Sinto o superficial impregnando minha pele
Será que se eu gritar consigo tirar isso de mim?
O ar puro virou raro
A poluição sonora das pessoas me sufoca
Ninguém mais lê, pesquisa, escreve
Só falam o que acham
Sufocam com suas baboseiras os ouvidos alheios
Será que andar com fones de ouvido adianta?
Ouvirei apenas o que é de qualidade
Preciso de um mundo que não dê valor a vaidade
Vou procurar o país das maravilhas nos meus sonhos
Enxergarei através do espelho
Seguirei um coelho
Ouvirei apenas histórias malucas em uma mesa de chá
Voltarei para a realidade apenas quando do meu sonho
Me obrigarem a acordar. 

(Mariana Magalhães)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Não é um conto de fadas


Não acreditava muito nessas baboseiras todas de amor, até você decidir pegar o primeiro ônibus para me ver. Pensei: ‘Será? Não pode ser...’. Mas foi. E descobri que todo o meu passado foi traçado na expectativa de te encontrar, ou melhor, te reencontrar. Nesse meio tempo tive que engolir uns sapos por aí. Mas valeu a pena. Valeu porque, você pode não saber, mas cada parte de mim se encontra em harmonia de uma forma como nunca esteve, e eu sei que os motivos se resumem a você.
É impressionante como em apenas um mês de trocas incessantes de mensagens com conversas infinitas, que rendem vários momentos antissociais com os nossos amigos, pode tomar uma proporção tão grande que cria na gente a sensação de estarmos juntos há anos...
Vira e mexe brincamos ao contarmos para os outros como nos conhecemos; que numa cidadezinha paraense fazíamos o terrorismo com aqueles que nela moravam, mas por algum motivo, que nem mesmo a gente sabe explicar, já tínhamos nossos acordos subentendidos de que nossas travessuras de criança cessavam entre nós dois. Fico pensando... Será que já sentíamos alguma coisa? Algo não compreensível naquela época? É possível...
Só sei que quanto mais tempo passa, mais você me prova que distancia só existe para aquele que quer que ela exista. Posso não te ver todos os dias, mas saber que posso te encontrar sempre no meu coração, já me basta para aguentar esperar o próximo avião.

(Mariana Magalhães)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Todo dia



Espelho, espelho meu...

Não quero ser mais um
Não quero deixar de ser um
Não quero ser mais um na multidão
Mas também não quero deixar ninguém na mão
No mundo é preciso ter emprego
Para não sustentar o desapego
O narcisismo capitalista continua
Mas você está a pé pela rua
Para o Presidente só falta ir a Lua
E continua a disputa
Você tem um mestrado a menos que o filho da puta
Sua vida passa e o mundo continua
Ninguém liga se você precisa de ajuda
Na sua cabeça segue o dilema
E ainda existe um problema
Do sistema você se cansou
Mas o seu filho ainda não jantou.
(Mariana Magalhães)


Cotidiano e o rodo

Daqui de cima vejo a poesia indecente do centro de Belo Horizonte. Sombrinhas se cruzam de um lado ao outro da avenida, em várias direções, fluxos que convergem e divergem ao longo do caminho, sob o céu cinza escuro e a chuva. Às vezes se esbarram, mas a rotina não costuma deixar tempo nem para um breve pedido de desculpas.  Ônibus e carros passam rápido, aos montes, pra lá e pra cá e, daqui do alto, do meu vigésimo segundo andar, bem no meio de tudo, filosofo banalidades - de que esse povo é formado? Jovens, velhos, crianças, negros, brancos, asiáticos, e suas mais variadas combinações. E os indivíduos? De onde eles veem? Para onde vão? Quais seus sofrimentos? E suas alegrias? Talvez algum deles morra hoje. Talvez algum deles faça um filho hoje. Alguém com certeza vai chorar, e alguém com certeza vai chorar de rir. Alguém deve beijar com a boca de hortelã, esperar no portão, lacrimejar de cortar cebola. Pensar em dizer “não” ao meio dia, e querer ir embora, dar o fora. E eles continuam lá, passando despercebidos uns pelos outros. Uma só massa de sujeitos individuais. O centro sujo não deixa esquecer a correria agonizante da rotina que passa por aqui. Nos becos que todos fingem não ver, uns traficam, outros se drogam, outros se prostituem. Gente de todo tipo se esbarra. “Foto!”, “loteria!”, “celular!” – vende-se de tudo, todo dia, no mesmo lugar. Hippies e andarilhos oferecem suas bugigangas artesanais. E as pessoas continuam passando apressadas. Daqui de cima vejo tudo. Em pouco tempo vou me misturar a eles – seremos todos sombrinhas se cruzando sob o mesmo céu, cinza e molhado, vindo de algum lugar em direção a qualquer outro, exatamente como amanhã ou daqui a um mês, ou quem sabe um ano.
(Mariana Pio)






quarta-feira, 23 de maio de 2012

Os impostos silenciosos


Cidadão desconhece a tributação indireta que lhe permite exigir bom atendimento em escolas e hospitais públicos.

É preciso pensar o papel do Estado como gerador de qualidade social, principalmente a partir da seguinte questão: quem é o proprietário do que é público? O adequado seria afirmar: o povo, mormente o "povão", que, por ser maioria, é o grande contribuinte. Ora, o "povão" não se coloca nessa condição porque acha que não paga impostos; aliás, ele se humilha no equipamento público porque não sabe que o financia. É por isso que o povo chama a escola do "governo", o hospital do "governo" e, portanto, de graça ou graciosamente.
O "povão" acha que não paga imposto, porque pensa que imposto é só imposto direto, que é o imposto sobre renda e propriedade, o que ele não tem. Os principais impostos diretos - como o Imposto de Renda (IR), o Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU), o Imposto Territorial Rural (ITR) - o "povão" não paga mesmo. Aliás, desses não são muitos os justamente pagantes, dado que o IR grava especial e quase exclusivamente os assalariados, o IPTU não é progressivo e há grandes isenções nas metrópoles, e o ITR ainda não chegou próximo à justiça tributária em um país de latifúndios.
A questão é muito mais complexa. O "povão" acha que não paga imposto, mas paga impostos indiretos que são os impostos sobre o consumo, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Como a parcela extensamente majoritária dos orçamentos públicos vem dos impostos indiretos, quem financia os orçamentos? Quem consome. E quem consome? Todos.
Onde estão os impostos indiretos? No leite, no pão, no sapato, na água, na luz etc. Vamos a um exemplo concreto: 1 litro de leite na padaria ao lado custa R$ 1,10 e, neste preço, R$ 0,25 são impostos. Se eu ganhar R$ 1 mil de salário por mês, eu pago R$ 0,25 de imposto; se eu ganhar R$ 10 mil de salário por mês, eu pago R$ 0,25 de imposto. Se eu ganhar R$ 100 mil de salário por mês, eu pago R$ 0,25 de imposto; se eu ganhar R$ 180 por mês, eu pago R$ 0,25 de imposto. Como isso está no leite, no pão etc., etc., a conclusão é óbvia: como a maioria do país é pobre, é esta que sustenta os orçamentos que a ela não retornam em forma de serviços públicos adequados, configurando uma espécie de estelionato.
E ele - o "povão" - acha que não paga imposto. Tanto que vai à escola pública e é muitas vezes desprezado na fila; vai ao hospital público e fica deitado na maca no corredor. O "povão" está pagando. A criança reclama da merenda na escola e um colega nosso fala assim: "Mas esse povinho come de graça e ainda está reclamando" ou, no hospital, "esse povinho recebe atendimento de saúde gratuito e ainda está reclamando, quer leito bom, quer remédio de graça". De graça? Aquilo está pago! E muito bem pago!
Por isso, a violência mais forte é a não-compreensão de todas essas coisas, o não-esclarecimento de que, se o cidadão paga imposto, ele tem esse direito e, acima de tudo, é seu direito ser proprietário do que é público.


Mario Sergio Cortella é professor de pós-graduação em Educação (Currículo) da PUC-SP.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Pseudo psicóloga

Já compreendi o que se passa na sua cabeça. Confesso que por uns bons dois anos matutei sobre seus ‘pontos finais’ que, na verdade, estão mais para ‘ ponto e vírgula’.
Não sou psicóloga e nem nada parecido, mas descobri que sou metida a uma, o pior é que alguns indivíduos me procuram com a simples necessidade do desabafo.
Mas, bom, não vamos fugir do assunto. Sei exatamente do que você precisa. Apenas duas coisas. Não são simples, mas também não são impossíveis. A primeira delas é tirar a ‘capa’ que você criou para você mesmo, de que sua vida é uma merda. Os problemas são o tempero dessa loucura em que você vive. Agora é a hora de acabar com o martírio. E a segunda coisa, é a mais importante. É aquilo que vai te libertar para conseguir ser feliz com uma mulher, comigo de preferência. Leia com atenção para que todas as suas dúvidas se libertem da sua mente preocupada. Ai vai: as pessoas não são iguais, melhor ainda, nem todas as mulheres querem te ver magoado, com o coração doendo.
Na verdade, as que querem isso são raras e provavelmente elas desejam isso porque, em alguma ocasião, você deve tê-las magoado primeiro com essa sua mania de fazer tudo antes que possam fazer com você. RELAXA. Síndrome de perseguição não ajuda ninguém. Como diria um cara invejável da literatura: ‘Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará’.
Sai dessa logo, aproveita essa sua saúde toda. Larga as dúvidas e vem viver na certeza de ficar comigo.
E nesse meio tempo, vou ficando por aqui, escrevendo e matutando como vou conseguir te fazer entender que você deve vim logo para me fazer dormir.



(Mariana Magalhães)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Carta do Juiz


Semanas atrás causou repercussão por aí (oh, mídia, sempre tão imparcial!) uma sentença [na íntegra aqui] proferida por um juiz de Divinópolis - MG, cujo caso era a briga de duas mulheres por um "homem" (tenho sérias dúvidas). Questionado sobre tal sentença, o juiz escreveu a seguinte carta, publicada no site do TJMG: 

"Fazer Justiça não é fazer Direito.
Vocês da imprensa me perguntam agora, porque algumas sentenças minhas são
diferentes. Talvez sejam. Vou pensar. Talvez seja porque agora eu tenho    em mim certa
segurança de que fazer Justiça é coisa muito diferente do que o simples fazer Direito. Isso
talvez seja diferente hoje em dia. Vou meditar. Mas ainda assim não compreendo porque
algumas sentenças não podem ser diferentes. Porque eu mesmo não posso ser diferente.
Porque eu tenho que ser igual aos outros, usar cartão de crédito, ter celular, fazer parte de
uma rede social? Minhas sentenças só possuem valor se forem iguais às dos outros? Só vale
chapinha, agora? Eu só tenho valor se usar celular, cartão de crédito e usar essa engenhoca de  
Facebook? Onde está escrito que tenho que ser igual? Não são vocês mesmos que dizem na
televisão a toda hora que “ser diferente é normal”?  
Muitos dizem que Justiça é dar a cada um o que é seu. Bacana isso! Já vi muitos
doutores dizendo isso, até na TV Justiça. Mas não acho isso correto. Direito é dar a cada um o
que é seu. Justiça não é dar a cada um o que é seu. Prá mim, Justiça é muito mais. Se justiça
fosse dar a cada um o que é seu, então, ao desgraçado, quando eu fosse fazer Justiça, em
minhas sentenças, eu só poderia dar desgraça; ao infeliz, a infelicidade, ao desafortunado, a
desfortuna, porque é isso que essa gente tem. Mas não é assim que eu trabalho e penso.
Direito é dar a cada um o que é seu. Justiça não. Quem dá a cada um o que é seu faz Direito.
Pode ou não fazer Justiça. Cada caso é cada caso. Mas Justiça é muito mais. Justiça é colo de
mãe, na mais perfeita definição que já ouvi dela, e isso foi de uma criancinha de 03 anos, pura
e ingênua, dentro de minha própria casa. Quem diria? Depois de ler tantas  obras jurídicas, dos
mais renomados juristas, foi numa criancinha de três anos que encontrei a melhor definição de
Justiça. Justiça é colo de mãe! É Justo:  mãe não dá a cada um dos filhos o que é seu. Isso não.
Mãe se dá por inteiro a todos eles! É assim que é a Justiça, e isso é coisa bem diferente que
Direito.
Talvez seja por isso que algumas sentenças minhas sejam diferentes, para vocês. Vou
pensar.    Talvez porque elas, em algum ponto, se afastem do Direito para fazer Justiça, e,
convenhamos, isso está se tornando coisa difícil hoje em dia. Vou refletir mais sobre isso.
Relativamente ao caso que causou alvoroço da imprensa, não sei o porquê, de um
simples julgamento de briga de duas mulheres, sobre o caso em si não posso mais falar. E nem
quero. Já sentenciei e o destino do caso agora está na Turma Recursal. Já fiz minha parte e
acho que bem feita. Se não estiver, os sobrejuízes decerto saberão corrigir, pois é assim que
funciona no Estado Democrático de Direito. Mas posso falar acerca do meu estilo, que é o que
interessa à imprensa, e porque elaborei aquela sentença, daquela forma. Só estilo pessoal. E
digo: quando acabei de elaborar a sentença, tendo como parâmetro tudo o que havia apurado
na audiência, na peça de defesa e na informação de que a ré havia pagado somente R$300,00
1para se livrar de acusações de três crimes, pensei comigo: esta sentença está correta; fiz
Direitinho meu trabalho. Se o Promotor entendeu que R$300,00 era suficiente para punir
criminalmente quem comete três crimes, um até um pouco mais grave, o valor que eu
encontrei aqui está correto.   Mas foi aí que eu matutei comigo mesmo, pois mineiro é assim,
matutando ele entende melhor as coisas: está Direitinho mas não está Justinho. Apaguei tudo
que havia escrito. Não era Justo. Era Direito, mas não era Justo. Como poderia ser justo se nos
crimes de    manutenção de maritaca (na verdade o nome do bichinho é maitaca e não
maritaca) em cativeiro o próprio Promotor oferece transação de R$1.800,00 e mais
composição civil dos danos ambientais de R$3.000,00 (total R$4.800,00). Liberdade de
maritaca vale sozinha mais que três crimes definidos no Código Penal, contra pessoa? Tá
errado. Apaguei tudo e fiz o que entendi o que era justo, bem ajustado para o caso. Como
poderia estar correta uma sentença que havia analisado tantas teses jurídicas, para um caso
tão singelo de briga de mulher. Não era nem racional, senti que   estava apenas tentando, de
outra forma, explicar física quântica para crianças de três anos.
Apaguei e fiz outra. Esta sim, sem as influências   do tecnicismo ajustado ao Direito,
mas que no caso concreto, estava muito próxima da Justiça. Do que eu entendo de Justiça. É
porque carrego sempre comigo ensinamento de um Mestre dos tempos de escola, livro
fininho; só em dez regrinhas ela condensa tudo o que é de Justiça: “Teu dever é lutar pelo
Direito, mas no dia em que encontrares o Direito em conflito com a Justiça, luta pela Justiça”.
Assim, cada palavrinha,    cada expressão da sentença foi lá colocada    da maneira mais
pertinente, mais ajustadinha possível com o que havia ocorrido na audiência. Para mim, a
sentença não poderia ter cara diferente do processo, pois isso não era Justiça, era hipocrisia
travestida de Direito. Só isso. Utilizar aquelas expressões que eu estava usando na sentença
anterior era pedantismo para com as partes, que nem queriam ouvir nada do Juiz, só queriam
sentença. No final das contas, o que ambas queriam era apenas saber quem ganhou e quem
perdeu. Só isso.   Ninguém estava ali para discutir teses, teses e mais teses; montanhas de
injustiças. Então a sentença não poderia ser outra. Foi aquela que foi.
Tenho visto muito Direito nos processos dos Juizados Especiais. Nas contestações,
principalmente,  quem se der ao trabalho de pesquisar, vai encontrar muito Direito compilado
(teclas copiar e colar, do computador). Outro dia apareceu uma, de 60 páginas, 6 teses só de
preliminares e mais um tantão delas de mérito: o valor da causa era de R$0,06 (seis centavos
de Real). O advogado gastou mais natureza para contestar o pedido do que o próprio valor da
causa. É Direito. Não é Justo. Mas quem se importa com valores hoje em dia? Há algum tempo
atrás, uma advogada até colocou o dedo em riste dizendo que estava se lixando para as
minhas sentenças, porque ela já sabia o que eu pensava sobre o caso que ela estava
defendendo. Era um simples processo de cobrança de telessexo em conta de telefone, cujo
valor não chegava a R$10,00, mas a advogada, com sua preposta, não queria nem participar da
sessão de conciliação, alegava que já sabia mesmo qual seria a sentença, pois já conhecia o
meu pensamento sobre tais cobranças e não queria participar da sessão. Não permiti. Está na
Lei que ela deveria participar, sob pena de revelia. Ela disse que iria até o Supremo, ainda que
o valor da causa fosse R$0,01, mas ela não deixaria de utilizar de todos os instrumentos legais
para não permitir a procedência da causa. Só se interessava pelo Direito. A tese dela era a de
2que, como o Jornal O Estado de Minas favorecia a prostituição abertamente em suas páginas
de classificados (e isso é verdade!), inclusive com a anuência do Ministério Público, que havia
firmado com o Jornal um Termo de Ajustamento de Conduta (também verdade!),   então, só
por isso, ela entendia que a empresa de telefonia que ela defendia podia cobrar telessexo
livremente, tese com a qual não concordei e já havia sentenciado um bocado de processos.
Mas, 40 dias depois dessa audiência, essa mesma advogada entrou chorando no meu
gabinete. O seu pai estava num Hospital, internado, e o plano de saúde não autorizava certo
procedimento médico. Ela queria agora uma liminar para obrigar o plano de saúde a fornecer o
tratamento. Agora só lhe interessava Justiça.  ‐ O Senhor, disse ela, não pode nem   dar prazo
para o plano de saúde se manifestar sobre o pedido de liminar senão o meu pai morre! Agora
ela só queria Justiça. Não se importava mais com o Direito, nem com o processo.
Então, não entendo porque tanto alvoroço, porque dizer que algumas de minhas
decisões são diferentes.  “Ser diferente é normal”.
Fazer Justiça não é fazer Direito. Fazer Justiça é muito mais que isso. Fazer Direito, só
pelo Direito, sem se importar com Justiça, isso é mediocridade. Essa regra eu sempre recuso.
Fazer Direito com olhos na Justiça, isso é muito bacana, chega a ser genial em alguns casos. Dá
muita satisfação profissional ao magistrado sério. Mas fazer Justiça, só com olhos na Justiça,
isso tem um toque de Divino. É superior a tudo. Quando o Supremo Tribunal Federal julgou o
caso das cotas raciais, ele fez Justiça. Acho. Foi Justiça à unanimidade. Mas para a Folha de São
Paulo, o julgamento do STF foi medíocre, parecia “conversa de bar”, comentaram lá naquele
jornal. Cada um tem seu conceito do que é Justo. Talvez seja por isso que a jornalista lá de São
Paulo,   ao publicar recente   matéria sobre a minha forma de sentenciar, apenas pinçou uma
partezinha de uma sentença que ela entendeu de retirar do contexto e fez lá sua
hermenêutica do tititi em sua coluna semanal. Acho. Não li, porque não acompanho Facebook,
nem rede social alguma, mas fiquei sabendo agora. Mas ela tem lá também o seu direito
constitucionalmente assegurado de livre manifestação do pensamento, como eu acho que
também tenho o meu.    E se ela só conseguiu retirar aquele pedacinho que dizem que ela
retirou, talvez porque seu mundo todo seja aquilo mesmo. Ninguém faz suco de laranja tendo
só jabuticaba no inborná, dizia amigo meu, dos tempos de juventude. No espelho, ninguém é
mais feio ou mais bonito do que é. Ela havia me telefonado e perguntado se eu não tenho
medo de ser diferente, de ficar sozinho. Via‐se, pela pergunta, que ela não sabe nada que a
mineiridade se constrói é na solidão, na quietude. Além disso, quem tem colo de mãe não
pode se julgar sozinho, porque ela se dá de todo, o tempo todo. E se Justiça é colo de mãe, se
eu estou com ela, como poderia me julgar sozinho?
Cada caso é cada caso. É assim que penso e assim que trabalho. No ano passado
sentenciei, sem assessor, 3.618 processos. Quantos Juízes podem dizer que julgaram tantos
processos assim? Cada um desses 3.618 processos teve lá sua sentença. A maioria delas, com
certeza, bastou aplicar regra de Direito, porque a regra do Direito, para esses casos, se
amoldava às regras da Justiça. A Justiça tinha a mesma cara do Direito.    Alguns deles, a
sentença se distanciou um pouco da regra do Direito, porque prevaleceu a regra de Justiça. De
vez em quando aparece um caso que só deve receber regra de Justiça, com expressões e
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contornos da Justiça, com alguma formatação mínima exigida pela regra do Direito, como foi o
que causou alvoroço que não entendi. Mas vou pensar mais sobre isso.  
  Meu direito à livre manifestação do pensamento, contudo, acho que ainda tenho e
não é porque alguém possa se sentir incomodado com minha manifestação é que eu vou fazer
igualzinho aos outros. Ser diferente é normal.  
Não concordo que os processos nos Juizados Especiais,    em que tudo deveria ser
comandado pelos princípios da oralidade, simplicidade, informalidade, economia processual e
celeridade se transformem nesse inferno do Direito em que as peças processuais estão se
tornando. Mas quem se importa com princípios? Hoje quase tudo é só tese, tese e mais tese.
Injustiça no atacado. Direito pelo avesso. Já diziam os romanos na sabedoria criadora do
Direito: summum ius, summa injuria (excesso de Direito, excesso de injustiça). Nos processos
envolvendo grandes empresas, não se fala mais uma só palavra sobre fato, nem as partes se
preocupam de fazer provas documentais ou sobre fatos. Só teses. A oralidade foi para não sei
onde e a informalidade, ah, quando essa é usada pelo Juiz, ah, esse cara é diferente! Isso não é
normal! Talvez não seja normal mesmo. Quando atuei em processos de família, vi muitas
crianças sendo tratadas como coisas. Diziam os pais em conflito: “Fica com essa coisa aí com
você que eu pago a pensão”. Não foram poucas as vezes que tive a infelicidade de ouvir isso
em salas de audiências. No próprio caso em questão há expressão do gênero. Mas nos
processos envolvendo simples acidentes de veículos, estou vendo a todo dia alegações como
esta: ‐ Seu Juiz, esse carro é de estimação, tenho ele há muitos anos, é como se fosse gente da
família. Tem dano moral sim, porque o carro é como se fosse gente”. Gente é coisa. Carro é
gente. Talvez isso  tudo é que seja normal. Vou meditar mais, talvez eu seja mesmo diferente.
De uma coisa eu bem sei, de um ensinamento de um índio chucro e selvagem, não de
um jusfilósofo ou jurisconsulto. O que acontecer com a Justiça, isso afetará o homem. O
homem só pode existir em uma comunidade se houver Justiça, onde houver colo de mãe.
Mas também vou continuar matutando mais sobre isso."

É. Quem sabe, sabe.

(Mariana Pio)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Insônia criminosa.

São exatamente 04:33h.

Dizer que acordei agora por sua culpa seria romanticamente exagerado, mas confesso que já perdi várias horas de sono.
Me pergunto como é possível que você continue em liberdade se por tantas vezes perturbou meu repouso noturno.
Estou com o telefone em mãos, pronto para acionar o já conhecido disque denúncia e me queixar de você, mais uma vez.
Só não o faço, pois, em último caso, sua condenação não seria o suficiente para reparar o dano causado e me deixar reconfortado.
Você, perspicaz do jeito que é, continuaria me atormentando não importa onde esteja, seja qual for o presídio e seu respectivo nível de segurança.
Se juiz eu fosse e tivesse a oportunidade de julgar o caso, enfim teríamos uma solução.
Me sentenciaria a pena de morte por decapitação.
Pra te tirar da cabeça, só tirando ela fora.
Não me restam medidas alternativas.

Todavia, se juiz eu fosse, estaria impedido de te julgar em qualquer instância.
Me declaro, de ofício (não vou esperar sua provocação), suspeito por motivo íntimo.

Inacreditavelmente, por Klaus Bovendorp.



(Klaus Bovendorp)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Médica dos corações

Corações partidos
são sua especialidade
Já encontrou muitos
e continua a procurá-los
Reconstrói pedacinho por pedacinho
Dá ouvido e carinho
Palavras de consolo
são como cola potente
Ensina que nada será como antes
Mas que a força vem de uma fraqueza
Coloca tudo no seu devido lugar
Com tempo e dedicação
Mas depois de curados
fica sozinha
Ela é a transição
para novos amores
Mas depois que os reabilita
Dilacera o seu próprio
Descobriu sua sina
cuida de outros para os outros
e fica sozinha
até o próximo coração
que precisar de reparação.

(Mariana Magalhães)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

All Star

Um tênis perdido
saiu despercebido
Por entre flores saltitou
no meio dos arbustos vasculhou
Mas só parou para admirar o Sol
quando como um anzol
Um cachorro puxou seu cadarço
virando-o direto para o espaço
Começou a contemplar o céu
viu cores que estavam no papel
Começou a sonhar que estava longe
em cima de um horizonte
Acordou com pingos d'água
correu pela calçada
Percebeu que ainda estava perdida
mas dessa vez não passou despercebida
Sentiu um calor chegando
e o desconforto foi passando
Um guarda-chuva para dividir
descobriu mais alguém que sabe sorrir
Mesmo encharcada
não ligava para nada
Não estava mais abandonada
Achou um outro pé para ficar amarrada.

(Mariana Magalhães)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Suco de amora

Tanto para pensar
Quase nada para falar
Sento e vejo a chuva passar

Tentativas frustradas em um violão
Escorrego pelo chão
Deixo chegar a escuridão

Tinha muito o que fazer
Mas me prendi em um livro com prazer
Fiquei por lá até o amanhecer

Tento a horas escrever
Aquilo que sei que você quer ler
Mas é impossível me fazer compreender

Tenho mesmo que te dizer?
Sei que é importante você saber
Mas não basta você me ter?

Te amo e pronto
Não tem explicação para o tanto
Estou aqui porque cansei de viver com o pranto

Te quero aqui e agora
Então, me faça um favor, não demora
Traga a minha felicidade e meu suco de amora.

(Mariana Magalhães)

domingo, 8 de abril de 2012

Feliz aniversário

Belo Horizonte, 4 de abril de 2012

Feliz aniversário.

Tudo de bom, muitas felicidades sempre, que você seja muito realizada e tenha muito sucesso e saúde! Só que não. O que eu queria mesmo falar era que eu te amo, sinto sua falta feito louca, lembro de você todos os dias e me arrependo profundamente do que aconteceu com a gente, seja lá o que for. É claro que não ouso ter a esperança de você me dar outra chance, de modo que isto é só um desabafo; não espero respostas. Arrisco dizer até que nem quero! Desculpe por ter perturbado sua vida com todos aqueles emails e desabafos há quase dois anos, eu só achei que, quem sabe, pudesse ser recíproco e você talvez também sentisse a minha falta, resolvesse me explicar que foi que eu fiz e me falar que também me quer de volta na sua vida. Mas você só pôde expressar sua raiva, rancor e decepção, e eu não a culpo jamais. As pessoas humanas são assim, sabe, a gente erra mesmo. Já se foram anos, sei que você não se esquece disso. Como eu previ que aconteceria, as máscaras caíram, e acho que quem tinha que ser descoberto já foi; aqueles que só se diziam nossos amigos também já se foram, mas outros ficaram e eles também sentem sua falta – irrisoriamente, em comparação comigo. De lá pra cá, tenho me questionado com desagradável frequência como fazer para chegar até você, mas na carência de uma resposta acabo divagando sozinha, devaneando, o que diria se te visse um dia na rua, quem sabe numa festa ou saindo do cinema com sua nova companhia. São tantas hipóteses que não arriscaria nunca divulgá-las assim tão fácil.

A mim resta contar com a ajuda de Deus, do Cosmos ou do Karma, como preferir, para que você acabe voltando pra minha vida, já que não vou te mandar uma carta nem um email e nem um inbox intentando te obrigar a me ouvir, como costumava fazer. Você não sabe da existência dessa carta, e estou pensando em publicá-la no blog, do qual você também não sabe da existência, mas foi a forma que encontrei de gritar pro mundo, mesmo que nunca chegue ao seu conhecimento, que ano após ano eu me lembro do seu aniversário e te desejo TUDO de bom, muitas felicidades SEMPRE, que você seja muito realizada e tenha muito sucesso e saúde, e desejo isso de coração. Que o melhor sempre te guie.

Saudades.

"Nicole".

(Mariana P.)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Um dose de tempo e gelo, por favor.

Nada mais adianta
Mas você ainda se espanta
Quando digo que acabou a janta
Solos de guitarra já não me conquistam mais
O refrão já foi escrito
Não tente voltar atrás
Siga o caminho que lhe parecer melhor
Dizem que o tempo é o remédio para dor
Me faça um favor
Arrume um novo amor
Siga a estrada que for
Só não me guarde com rancor.

(Mariana Magalhães)

sábado, 24 de março de 2012

Monólogo

Mundo moderno, marco malévolo, mesclando mentiras, modificando maneiras, mascarando maracutaias, majestoso manicômio. Meu monólogo mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres, miscigenação, morticínio -- maior maldade mundial.

Madrugada, matuto magro, macrocéfalo, mastiga média morna. Monta matumbo malhado munindo machado, martelo, mochila murcha. Margeia mata maior. Manhãzinha, move moinho, moendo macaxeira, mandioca. Meio-dia, mata marreco, manjar melhorzinho. Meia-noite, mima mulherzinha mimosa, Maria morena, momento maravilha, motivação mútua, mas monocórdia mesmice. Muitos migram, macilentos, maltrapilhos. Morarão modestamente, malocas metropolitanas, mocambos miseráveis. Menos moral, menos mantimentos, mais menosprezo. Metade morre.

Mundo maligno, misturando mendigos maltratados, menores metralhados, militares mandões, meretrizes, marafonas, mocinhas, meras meninas, mariposas mortificando-se moralmente. Modestas moças maculadas, mercenárias mulheres marcadas.

Mundo medíocre. Milionários montam mansões magníficas: melhor mármore, mobília mirabolante, máxima megalomania, mordomo, mercedes, motorista, mãos... Magnatas manobrando milhões, mas maioria morre minguando. Moradia meiágua, menos, marquise.

Mundo maluco, máquina mortífera. Mundo moderno, melhore. Melhore mais, melhore muito, melhore mesmo. Merecemos. Maldito mundo moderno, mundinho merda.

(Chico Anísio)


Vídeo do Chico Anísio no Programa do Jô declamando 'Monólogo'.
http://www.youtube.com/watch?v=qIGYZFDl174&feature=share

quinta-feira, 22 de março de 2012

Jurisprudência do Amor

Já parou pra pensar sobre a jurisdição do relacionamento?!? É puro processo.
Todo relacionamento traz embutido um processo de conhecimento, ao qual se segue o processo de execução.

A doutrina da mocidade, então, inventou as medidas cautelares e a tutela antecipada. Afinal de contas, com o "ficar", você já obtém aquilo que conseguiria com o relacionamento principal, e, além do mais, toma conhecimento de tudo o que possa acontecer no futuro, já estando precavido.

Esse processo de conhecimento pode, de cara, ser extinto sem julgamento de mérito, por carência de ação. Pior é o indeferimento da inicial por inépcia. E sem contar que na ausência do impulso oficial a coisa não vai pra frente. Havendo ilegitimidade de parte, o que normalmente se constata apenas na fase probatória; ou ainda, a impossibilidade do pedido, não tem quem agüente.

E quando é o caso, ainda mais freqüente, de falta de interesse... aí paciência!

Se ocorrer intervenção de terceiros, a coisa complica, pois amplia objetiva e subjetivamente o campo do relacionamento, transformando-o em questão prejudicial.

Pois, como se sabe, todo litisconsórcio ativo é facultativo, dependendo do grau de abertura e modernidade do relacionamento.

É necessário estar sempre procedendo ao saneamento da relação, para se manter a higidez das fases futuras.

É um procedimento especial, uma mescla entre processos civil e penal, podendo seguir o rito ordinário, sumário, ou, até mesmo, o sumaríssimo... dependendo da disposição de cada um.

A competência para dirimir conflitos é concorrente. E a regra é que se busque sempre a transação.

Com o passar do tempo, depois de produzidas todas as provas de amor, chega o momento das alegações finais... é o noivado! Este pode acontecer por simples requerimento ou então por usucapião. Alguns conseguem a prescrição nesta fase.

E na hora da sentença: "Eu vos declaro marido e mulher, até que a morte os separe". Em outras palavras, está condenado a pena de prisão perpétua.

São colocadas as algemas no dedo esquerdo de cada um, na presença de todas as testemunhas de acusação.

E, de acordo com as regras de direito das coisas, "o acessório segue o principal"... casou, ganha uma sogra de presente. E neste caso específico, ainda temos uma exceção, pois laços de afinidade não se desfazem com o fim do casamento.

Mas essa sentença faz apenas coisa julgada formal. É possível revê-la a qualquer tempo... mas se for consensual, tem que esperar um ano, apenas!

Talvez você consiga um "habeas corpus" e... novamente a liberdade.
Como disse alguém que não me lembro agora, "o casamento é a única prisão em que se ganha liberdade por mau comportamento".

Ah!!! Nesse caso você será condenado nas custas processuais e a uma pena restritiva de direitos: prestação pecuniária ou perdimento de bens e valores.

(por Arnaldo Jabor)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Rasteira do tempo

Acordou com a necessidade de um chocolate para acalmar os nervos. Já sabia que o único remédio que lhe cabia era o tempo, aquele já bem conhecido e que nunca passava da forma que ela gostaria. Resolveu que não mais viveria descompassada e sem alegria. Tomou então, uma decisão. Obedeceria apenas a razão. Arrancou seu coração e o trancou solitário em um porão. Era, ali, o fim decretado da ilusão. Passaram alguns anos e ela continuava consolidada na decisão, até o dia que trombou com o antigo dono de seu coração. Sem perceber que se encontrava paralisada, foi escorrendo como se fosse água, só voltou a realidade quando um 'Oi' lhe tomou despreparada. Voltou para casa como se fosse um fantasma. De repente, veio a vontade inusitada de matar a ansiedade com aquele chocolate. Percebeu então, que a única coisa que fez, foi enganar seu coração. O tempo passou, mas a razão não ganhou. Entendeu que apenas o desperdiçou, desejou ter passado o tempo perdido com aquele que sempre amou. Jogou a toalha e libertou aquele que sabia ir atrás da felicidade. Cantarolou pelo caminho como se estivesse em uma festividade. Tocou a campainha e deixou fluir a adrenalina. A porta se abriu e depois de alguns segundos de reconhecimento de retina, morreu de prazer com o abraço que recebia. Resolveu, desse dia em diante, que não mais seria impetulante, deixaria o tempo seguir seus caminhos e viveria tudo que viesse na velocidade e na intensidade que lhe coubesse.

(Mariana Magalhães)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Vó pra não ficar só

Vó pra ensinar a dar nó

Vó com cheirinho de vó

Vó pra amar sem ter dó


Vó que cuida de bicho

Vó suja de carrapicho

Vó que gosta de bingo

Vó pra passear no domingo


Vó que vive na cozinha

Vó que tá sempre limpinha

Vó pra fazer almoço

Almoço de vó, que causa alvoroço


Vó que sempre serve mais

Três pratos da comida que faz

Sempre andando atrás

E perguntando “tem certeza que não quer mais?”


Vó com ou sem cabelo branco

Vó que cura meu pranto

Com a casa cheia de santo

E o sorriso cheio de encanto


Vó, que é sempre consolo

Sossega meu medo e cala meu choro

E lá vem ela de novo

Com mais um pedaço de bolo!


Vó é toda pureza

Também toda beleza

E não há sentimento cuja nobreza

Chegue perto de tamanha grandeza


Vó de pele macia

Sinônimo de harmonia

Tanta paz eu desconhecia


Símbolo de experiência

Vó sabe de tudo um pouco

Cheia de eficiência

Com certeza meu grande tesouro!


Pras lindas da minha vida,

(Mariana P.)

terça-feira, 13 de março de 2012

Se...

Se Caetano consegue
dar ao pranto
uma melodia confortante
então eu posso
fazer poesia
com o choro gritante
Se Chico transforma versos
em música que acalanta o coração
posso conviver com palavras de amor
ditas em vão
Se muitos poetas
viveram escrevendo seus pensamentos
de portas abertas
não me envergonho
de me expressar pelo lápis
fazendo versos das minhas ideias.

(Mariana Magalhães)